terça-feira, janeiro 12, 2010

TERREMORTOS

Quando você for convidado para subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado, para ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos, dando porrada na nuca de malandros pretos, de ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos, só para mostrar aos outros quase pretos (e são quase todos pretos) e aos quase brancos pobres como pretos como é que pretos, pobres e mulatos e quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados. E não importa se olhos do mundo inteiro possam estar por um momento voltados para o largo onde os escravos eram castigados. E hoje um batuque, um batuque com a pureza de meninos uniformizados de escola secundária em dia de parada. E a grandeza épica de um povo em formação nos atrai, nos deslumbra e estimula. Não importa nada, nem o traço do sobrado, nem a lente do Fantástico, nem o disco de Paul Simon. Ninguém, ninguém é cidadão. Se você for ver a festa do Pelô e se você não for, pense no Haiti, reze pelo Haiti. O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.

E na TV se você vir um deputado em pânico, mal dissimulado diante de qualquer, mas qualquer mesmo, qualquer plano de educação que pareça fácil e rápido, e vá representar uma ameaça de democratização do ensino de primeiro grau. E se esse mesmo deputado defender a adoção da pena capital e o venerável cardeal disser que vê tanto espírito no feto e nenhum no marginal. E se, ao furar o sinal, o velho sinal vermelho habitual notar um homem mijando na esquina da rua sobre um saco brilhante de lixo do Leblon. E quando ouvir o silêncio sorridente de São Paulo diante da chacina, 111 presos indefesos, mas presos são quase todos pretos ou quase pretos ou quase brancos quase pretos de tão pobres, e pobres são como podres. E todos sabem como se tratam os pretos. E quando você for dar uma volta no Caribe. E quando for trepar sem camisinha. E apresentar sua participação inteligente no bloqueio a Cuba. Pense no Haiti. Reze pelo Haiti. O Haiti é aqui. O Haiti não é aqui.
CAETANO VELOSO & GILBERTO GIL

Um comentário:

Rita Schultz disse...

Oi, Paola, muito comovente seu texto. Penso que talvez alguns tambores estejam silenciados, hoje. Ou, quem sabe, entoando uma música fúnebre. Bjs.