Domingo, Junho 14, 2009

Manual para Atropelar Cachorro




Gênero: Ficção.
Diretor: Rafael Primo.

Elenco: Ary França, Bárbara Paz, Cynthia Falabella, Rafael Primo, Rodrigo Frampton, Rubens Ewald Filho, Tuna Dwek, Zezé Polessa.

Ano: 2006.
Duração: 18 min.
País: Brasil.


Conteúdo Adulto. De onde vem a maldade humana? O que leva alguém a cometer atos de crueldade? O mundo visto por uma mente doente, enlouquecida em uma cidade grande qualquer. Síndromes Urbanas.

Quinta-feira, Maio 21, 2009

fiquemal

Dá uma vontade de dar um tiro bem na testa e não ser presa pela pressa porque miro e faço a festa com quem ama e me detesta. Farsa. Só me diga onde jogar o cadáver pois o fardo é que me pesa o corpo oculta toda a reza ninguém canta ladra. Já fui trocada no alvo do dardo inimigo pensaram que eu era poeta mas sou pura rima do que inquieta do que pouca gente se diz. Acendo vela no nono mês para quem nasce descerro a cela a quem pretende reviver. Se verá os céus ou as profundezas vira passe de mágica a permitir o espírito quebrar-lhe as pálpebras. Terceiro olho pela bala entre as sombrancelhas não enxerga um palmo abaixo de sua cova rasa. Odeio com força aquela cara lavada em sujeira que se virou contra minhas provas de boa maneira. Fracamente não soube ser franco nem me comove mais em nada. Por isso quero matá-lo cem vezes se preciso na minha memória em razão de despoder despudorar-me num cuspe bem dito escarro de bote. Fui a sabotada que intenta saber do sabão de limpar a alma daquele lambe-botas-borra-vida-parva. Morra

Terça-feira, Maio 19, 2009

Bom-dia automático

Dia nascendo...
Um silêncio gelado resvala na ponta do nariz
Debruçou os cotovelos sobre o mármore da janela
Passarinhos em pio tênue despreguiçam suas asas
Réstia de sol esfumaçando rastros no horizonte
Cheiro de folha, chá de capim, pouca fumaça, vela
Um senhor abre a pálpebra e ora para quem
Seu escapulário está sobre o peito nu
Agora, 5 e trinta e 5 da manhã
Carros, ônibus na hora do rush ao contrário
Enquanto patos voam do sul para o nordeste
Ninguém vê aquele jardim, a fuligem acena
O quadro em natureza morta rouba a cena
Pão com manteiga esfarela na mesa
Crianças não querem ir à escola sob escolta paterna
Precisam todos dormir, espraiar, correr na relva
Cidade, se tua idade fosse de fato moderna
Não estaria a condenar minha selva
Não daria trabalho, não daria a mínima ao salário
E dinheiro seria novelo de lã, não essa novela
- Corta.

Sexta-feira, Abril 03, 2009

esquecimento global












Eu, triste triste que só ela
Amanheci bebendo o fel de mil remédios
A vida me avisa quando a febre passarela
Desfilam graus de frio a 10° humanos
Desagrados a centímetros do tédio
Passam-se então os anos e o perigo
Mas o abrigo de vidro continua o mesmo

Sábado, Março 14, 2009

Sangria

Vinho-me em brinde explícito aos que nunca sentiram nojo do meu sangue! Aos que sem constrangimentos nem ardores sorveram de meu corpo a fluidez mais feminil, a consequência mensal não geradora de filhos, pela ruptura ovular e lavagem do cosmos. Que tilintoso seja o toque dos que souberam degustar de minha taça açúcares, rubis e calores, aqueles vapores de festa ao cessar a noite entre danças de ventre e luar. Copos em êxtase descansados no suor vermelho das bocas. Um pardo ao tom róseo pela recepção do gozo, fluidos que se cristalizam. É nesta fusão que saúdo lobos famintos de cio, atraídos em faro pelo rubro liquidismo. Aos vislumbradores da beleza ante a menarca e ante o florescer de uma mulher dôo meu gole voluptuoso! São estes os reais destemidos dos espinhos supostos, pois empunham seus talos e plantam prazer em terra firme, depois tomam banho de perfumes com um quê de abençoados.

Sexta-feira, Fevereiro 27, 2009

rés_SEIO

Chega cedo ao alvo fácil em forma de ruído
Aos ouvidos criativos de enredo se grasna
O mais ledo engano atravessa travestido
Tal pênis de borracha na banheira

Antes fosse imagem o mais surreal dos sentidos
Não faria diferença por também ser mensagem

Sinestesia anestésica não excita pelo excesso
Exceto o medo...

Quanto maior, mais tênue a curvatura para dentro
O si se contrai no espelho
Aborta o feto de tanto espremer o vermelho
Espermasturba prematura mãe

Do mamilo sai a náusea
Pára o mundo.

Sexta-feira, Janeiro 30, 2009

Cala, frio!

Voa, vai brincar com teu azul profundo, que eu vou ver o passarinho verde lá da esquina. Sim, porque enquanto estiveres preso no quarto da melancolia, vou permanecer exposta no quadro da rua, vendo lua e estrela até o alvorecer do dia! Nem adianta falar, mesmo em boca calada tu me repudia. Tuas cinzas descoraram minha inocência num sopro de céu nublado, agora meu ventre chora. Fumaste toda a tormenta embora, baforou no meu rosto em afronta da janela o teu eu molhado. Agora treme na base por medo de estar sozinho. Pinto um moínho de vento, o teu retrato. Lembrança do que já mais não existe. Não existiu, jamais sonhado. Quando eu não quero, eu mato. Capino, entrego tua horta à chuva ácida, deixo brotar em um ano todo o breu do anonimato que por trás traz escrito frio: - aqui Jaz.

Sexta-feira, Janeiro 23, 2009

DOIS

Com as bocas cerradas, salivando a sós o desdito, seguimos os passos do outro, lado a lado feito um rito. Eu sem enxergar um palmo à frente. Tudo pela sensação antecipada de certa dor pungente. Os punhos atados com força tamanha, que a mão eu segurava na intenção de evitar o aceno de um adeus desesperado. Era obcena a certeza da saudade.

Antevia tanto a falta, que uma água preenchia a caixa dos olhos. Aquilo quase me cegava. Foi quando, de repente, avistamos no meio do cinza sujo de uma calçada duas rosas brancas. Freamos o andar, refreei as lágrimas. Os dois vegetais paralelos e eu paralizada. Fui impelida a pegá-las mas, em sinal de respeito aos sinais do sagrado, segui o caminho acompanhada de minha felicidade.


◄OUVINDO: Dos Gardenias, Buena Vista Social Club.

Terça-feira, Janeiro 06, 2009

mare y cielo


É ele! Dubitável no início, feito um medo de fim. Tudo acaba sendo assim. Quando vivemos por um tempo, ganhamos noções estratégicas de comportamento. Comportamos nossos sentimentos em estilhaços colados no local mais oculto, porque somos poeiras frágeis presas a um canto. Na faxina do existir, fragmentos resvalam nos olhos e fazem arder por um momento, depois habitua-se, vê-se de longe até o encanto. O pó vira diamante ao ensolarar. Quinto elemento. Sem metáforas, clarificando a mente, não falo de mal acostumar com aquele feio que nem faz força para embelezar, falo sim de adaptações com o novo, tornando-o aos poucos mais bonito.


É ele! Ouro líquido, elixir contra a cegueira. Que se lixem os tolos com sua visão petrificada. Este aqui não me veio coroado de louros. Do contrário, é moreno. Pele firme na alma de bem. Não me chegou de sobreaviso, foi a mim conduzido por um vento, ao ar livre propagador de sonhos. Sons... O sorriso dele é por dentro, para o outro com o peito alado. Ali resvalei, sorri, gargalhei. Sofri como qualquer outro, mas felicidade boa se constrói quista assim.


É ele! Meio quadrado, caixa de papelão para a mudança, vem conduzindo bem os meus cristais. - Este lado para cima (não pise a lama)! Confesso que é meu próprio grito que às vezes me quebra a vidraça, eu desespero por preguiça de agir, retroajo. Repito uma fala, uma falha no sistema quando nervoso, mas com a paciência dele conserto toda a matrix. Ferramentas possuo, suo porque posso, seja no trabalho árduo, seja no gozo.


É ele! Traz sorte, raro feito trevo achado entre as ervas-daninhas. Eu, danada, será que demorei a descobrir? Cada um a seu tempo, mas o dele voa, passa feito chuva por mim, aduba uma certeza com sobrenatural proeza de caminhar para um sim.

Terça-feira, Dezembro 16, 2008

O previsível imprevisto

Despertei cedo mesmo na manhã sem maiores compromissos. Iria dar um jeito nos cabelos, já que o ano está por se findar e não pretendo estar com a mesma cara no outro. Pus uma roupa qualquer, bem usada durante a semana, e rumei até o salão mais próximo de casa. Tempo nublado, calor insistente. Bati à porta. Silêncio... O ar me dizia alguma coisa pesada. A cabeleireira, que ouso chamá-la de amiga, - porque de tantas horas com suas mãos em minha cabeça e de tantas conversas sobre beleza e vida, hei de considerá-la uma boa amiga sim - lá se vinha ela chorosa de dentro do recinto para me abrir a porta. Estava no telefone, volteada por nuves escurecidas, quando desligou e me disse que seu irmão havia falecido. Olhei bem para dentro de seus olhos rubros, uma lágrima grossa se alojava no canto de uma das pálpebras, quando me disse como se dera a morte. O rapaz, por volta das seis da manhã, fora arremessado em pernas, braços, tronco contra uma carreta.

Naquele instante, minha memória me conduziu ao dia 13 de Dezembro, sábado passado. Meu pai me levava para casa, quando avistamos um corpo pequeno coberto com um lençol fino, minando sangue pelo asfalto da Av. 13 de Maio. Os policiais parados, as luzes altas das sirenes, tudo aquilo me doloriu o estômago. Não sei quem é capaz de se acostumar com a morte. Trágica. Senti-me frágil. E hoje, meio sem jeito, dei um abraço em minha amiga. Pêsames através de palavras a meu ver são menos válidos que a troca de energia confortável. Estou triste, muito triste pelo outro. Não sou próxima desses desencarnados, mas me dói profundamente.

Minha amiga me contou o quanto seu irmão parecia feliz um dia antes, ele que morava com a mãe já bem idosa e a ajudava de todas as formas. Na sensibilidade a gente acaba por interpretar qualquer gesto prévio assim como um sinal, um aviso. Vai ver que era. Desacredito em pouca coisa agora. É lei natural a morte, todo mundo possui essa certeza infalível, porém, acostumar-se com o imprevisto previsível, dificilmente. Vou orar em coração pelo espírito deste pobre desavisado e pelas almas viventes sofridas. Deus o tenha, Deus nos tenha a todos em sua proteção.