sábado, novembro 18, 2006

A mensagem


"A princípio, quando a moça disse que sentia angústia, o rapaz se surpreendeu tanto que corou e mudou rapidamente de assunto para disfarçar o aceleramento do coração. Mas há muito tempo - desde que era jovem - ele passara afoitamente do simplismo infantil de falar dos acontecimentos em termo de "coincidência". Ou melhor - evoluindo muito e não acreditando nunca mais - ele considerava a expressão "coincidência" um novo truque de palavras e um renovado ludíbrio.

Assim, engolida emocionadamente a alegria involuntária que a verdadeiramente espantosa coincidência dela também sentir angústia lhe provocara - ele se viu falando com ela na sua própria angústia, e logo com uma moça! Ele que de coração de mulher só recebera o beijo de mãe.

Viu-se conversando com ela, escondendo com secura o maravilhamento de enfim falar sobre coisas que realmente importavam; e logo com uma moça! Conversavam também sobre livros, mal podiam esconder a urgência que tinham de põr em dia tudo em que nunca antes haviam falado. Mesmo assim, jamais certas palavras eram pronunciadas entre ambos. Dessa vez não porque a expressão fosse mais uma armadilha de que os outros dispõem para enganar os moços. Mas por vergonha. Porque nem tudo ele teria coragem de dizer, mesmo que ela, por sentir angústia, fosse pessoa de confiança. Nem em missão ele falaria jamais, embora essa expressão tão perfeita, que ele por assim dizer criara, lhe ardesse na boca, ansiosa por ser dita. (...)

Até que também a palavra angústia foi secando, mostrando como a linguagem falada mentia. (Eles queriam um dia escrever.) A palavra angústia passou a tomar aquele tom que os outros usavam, e passou a ser um motivo de leve hostilidade entre ambos. Quando ele sofria, achava uma gafe ela falar de angústia. "Eu já superei esta palavra", ele sempre superava tudo antes dela, só depois que a moça o alcançava. (...)

E apesar da honestidade entre ambos se tornar gradativamente mais intensa, como mãos que estão perto e não se dão, eles não podiam se impedir de se procurar. E isso porque - se na boca dos outros chama-los de "jovens" lhes era uma injúria - entre ambos "ser jovem" era o mútuo segredo, e a mesma desgraça irremediável. Eles não podiam deixar de se procurar porque, embora hostis - com o repúdio que seres de sexo diferente têm quando não se desejam -, embora hostis, eles acreditavam na sinceridade que cada um tinha, versus a grande mentira alheia. O coração ofendido de ambos não perdoava a maneira alheia. Eles eram sinceros. E, por não serem mesquinhos, passavam por cima do fato de ter muita facilidade para mentir - como se o que realmente importasse fosse apenas a sinceridade da imaginação. Assim continuaram a se procurar, vagamente orgulhosos de serem diferentes dos outros, tão diferentes a ponto de nem se amarem. Aqueles outros que nada faziam senão viver. Vagamente conscientes que havia algo de falso em suas relações. Como se fossem homossexuais de sexo oposto, e impossibilitados de unir, em uma só, a desgraça de cada um. Eles apenas concordavam no único ponto que os unia: o erro que havia no mundo e a tácita certeza de que se eles não se salvassem seriam traidores. Quanto a amor, eles não se amavam era claro. Ela até já lhe falava de uma paixão que tivera recentemente com um professor. Ele chegara a lhe dizer - já que ela era como um homem para ele -, chegara mesmo a lhe dizer, com uma frieza que inesperadamente se quebrara em horrível bater de coração, que um rapaz é obrigado a resolver "certos problemas", se quiser ter a cabeça livre para pensar. (...)

Um modo possível de ainda se salvarem seria o que eles nunca chamariam de poesia. Na verdade, o que seria poesia, essa palavra constrangedora? Seria encontrarem-se quando, coincidência, caísse uma chuva repentina sobre a cidade? Ou talvez, enquanto tomavam um refresco, olharem ao mesmo tempo a cara de uma mulher passando na rua? Ou mesmo encontrarem-se por coincidência na velha noite de lua e vento? Mas ambos haviam nascido com a palavra poesia já publicada com o maior despudor nos suplementos de Domingo dos jornais. (...)

Agora e enfim sozinho, estava sem defesa à mercê da mentira pressurosa com que os outros tentavam ensiná-lo a ser um homem. Mas e a mensagem?! A mensagem esfarelada na poeira do vento arrastava para as grades do esgoto. Mamãe, disse ele."

(in Legião Estrangeira, Clarice Lispector, Editora Rocco)

4 comentários:

Anônimo disse...

nossa, q espaço maravilhoso!
adorei a visita, quero fazer com mais frequência!
beijos pra vc!!
Juliana
www.dj-vu.blogspot.com

Davi disse...

primorosa e inquietante Clarice Lispector...fantástico esse trecho! estou lendo "A via crucis do corpo".(Contos), dela...

seu blog é um primor!
;)

beijão menina

Pal, a voz silente disse...

Obrigada a todos pelos comentários!
Seus Blogs também dizem muito...
Abraços afetuosos e saudações literárias!

Tarco Zan disse...

Eh nóis!!!!!!!!!!!!!!!!!