quinta-feira, julho 20, 2006

GENTE

Desde desperta assim, meio neutralizada, nem triste nem feliz. A olhar para os cantos parada, a colher os movimentos da cidade e me detendo nas personagens mais bizarras. Quase invisível, se não fosse pelo aleijado da cadeira de rodas encarnando em minhas pernas, se não fosse pelos homens nojentos arrancando meu corpo de mim com as vistas, enquanto as ruas atravessava até o ponto do ônibus errado. Sim, por pouco não paro no final da linha desconhecida. No fundo queria me perder por algumas horas, por um mês talvez, só para não ter de fazer o mesmo percurso urbano. Mas tomei outra condução, a que me levaria ao meu destino, porém por novas vias. Não quis cortar caminho. Passamos pela catedral tomada por turistas que acabavam por quebrar a paisagem gótica daquela arquitetura, um gotocismo no qual tentava penetrar, abstraindo os berros do sol vespertino. Mais adiante, dois bonecos gigantes feitos aqueles de Olinda acenavam sem direção, representando políticos. Dei conta dum santinho com o rosto real do candidato impresso em papel caro sobre o assento do meu lado. Tomei-o às mãos e comparei o semblante do deputado com uma das máscaras cabeçudas de sorriso pintado. Até parecia, se não fosse pelo sofrimento ali debaixo daqueles panos, borracha e machê a troco de uma micharia qualquer. Logo chegamos ao Centro. Sinais vermelhos. O primeiro fez com que parássemos em frente um armazém de ração para gatos. Na porta, um figura punhava óculos escuros num siamês bem gordo e não pude conter o riso, compartilhado então com uma garotinha perto do pai. O segundo me pôs próxima a uma loja de artigos de umbanda. Na fachada o nome Zé Pilintra, de dentro, um cheiro forte de incenso e velas, carrancas de madeira, vasos de cerâmica, santos de barro. Verde o sinal. A cada esquina um impacto. Um Matusalém com a camisa do Flamengo varria a calçada sempre no mesmo sentido. Do outro lado, um negro retinto muito alto, com seu cabelo Rastafari imenso e olhos vermelhos confundia-se com sua própria sombra na parede, com o anoitecer. Minha vez de dar o sinal. Desci a dois quarteirões de casa, só para andar um pouco mais e ver de perto essa gente minha que não sabe se é, nem eu sabia. Ao final, encontrei um velho conhecido, um conhecido velho de vista, um senhor que em certa madrugada insone flagrei da varanda do meu apartamento conversando com uma árvore lá em baixo. Mas desta vez ele girava o braço veloz, como que movimentando uma manivela invisível. Dizia ele se tratar do asfalto um poço de petróleo, que ele próprio era o dono do supermercado mais adiante, ainda falava 6 dialetos indígenas e que todos ao seu redor eram uns malucos. Talvez tivesse ele razão, ao menos mais imaginação que uma criança ele tinha. Fui embora com o choro sorrindo...

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